A QUESTÃO HIBAKUSHA
Nem todas as
histórias de sobreviventes da
bomba são uma sucessão de tragédias. Embora raras,
algumas dessas pessoas têm
experiências relativamente felizes para relatar, embora as
tristes lembranças
do que elas viveram no dia da explosão tenham alterado suas
vidas para sempre.
Em 1945, Takashi Morita era
um jovem
soldado mais preocupado em sobreviver do que lutar. Havia se alistado
pois no
exército ainda havia comida - o resto da população
no Japão passava fome com o
racionamento. Ele estava em Tóquio em março, quando nos
dias 9 e 10 os
americanos bombardearam a cidade por horas e 80 mil pessoas morreram.
Isso fez
com que ele pedisse transferência para sua cidade natal,
Hiroshima, que
curiosamente se mantinha intacta, poupada dos bombardeios. Ele achou
que seria
mais seguro voltar para casa.
Após meses de espera,
Morita finalmente
conseguiu sua requisitada transferência - ele chegou à
cidade apenas poucos
dias antes do fatídico 6 de agosto. No dia da explosão,
ele estava num bonde,
com alguns outros soldados a caminho do quartel. Ele havia acabado de
descer do
bonde, quando sentiu o vento levantá-lo pelo ar e
arremessá-lo ao chão a quase
cem metros de onde estava. Ele ficou atordoado por alguns instantes, e
se
recorda de um súbito calor calcinante. Ao olhar para
trás, à procura de seus
colegas, viu que eles não haviam tido sorte. O bonde do qual
havia acabado de
sair estava em chamas, e ele achou que o veículo havia
explodido.
Mas bastou
ele olhar ao redor para perceber que algo muito maior havia ocorrido.
Havia
muita gente ferida e a destruição era grande demais para
uma bomba comum. Ele
tentou socorrer um menino muito queimado, cujas últimas palavras
foram
"senhor soldado, por favor, vingue a minha morte". Infelizmente
aqueles eram tempos de guerra, e Morita ainda fica com os olhos cheios
de
lágrimas ao se recordar do desconhecido garoto. Mesmo sentindo
dor nas costas e
nuca (mais tarde Morita descobriu que eram queimaduras da
explosão atômica),
ele se dirigiu ao centro da cidade para ajudar no socorro à
população. As cenas
de terror daquele dia, mais de 60 anos depois, ainda lhe causam
pesadelos. Ele
se lembra de ter sentido uma sede anormal e repentinamente desmaiar,
vindo a
acordar dias depois num hospital de campanha.
Tendo sido exposto à
radiação, Morita
adoeceu seriamente, perdeu os cabelos, mas diferentemente de muitos
sobreviveu.
Nos anos 50 decidiu tentar reconstruir a vida no Brasil. Estabeleceu-se
em São
Paulo, onde trabalhou como ourives e joalheiro. Aposentou-se mas
não parou de
trabalhar, e abriu duas mercearias especializadas em comida japonesa e
um
restaurante. Morita casou-se com uma sobrevivente de Hiroshima; teve
dois
filhos e vários netos. Como todo hibakusha,
Morita sempre se preocupa com a própria saúde e a de seus
descendentes, e
afirma aliviado que todos são saudáveis.
Hoje octagenário,
Morita-san é um caso à
parte. Lúcido, ativo e bem-humorado, ele costuma dizer que "eu
passei por
dois dos piores bombardeios da 2ª Guerra no Japão.
Não sei se isso é sorte ou
azar. Se eu sobrevivi, é porque realmente não era para eu
morrer cedo".
Ele é certamente afortunado, mas isso não quer dizer que
Morita, assim como
todos os hibakusha - nome pelo qual
são conhecidos os sobreviventes das explosões
atômicas em Hiroshima e Nagasaki
- não tenham tido difíceis dias seguintes após a
bomba.
Diferentemente do que hoje
se imagina, as
vítimas da bomba atômica não dispuseram de imediato
da simpatia ou da compaixão
pública. As explosões causaram problemas inéditos
na história da humanidade, no
campo da política, das relações internacionais,
até de ordem social. As
seqüelas permanentes das queimaduras radioativas - as
quelóides - desfiguraram
muitos dos sobreviventes a ponto de serem impedidos de terem uma vida
social
comum. A exposição à radiação criou
um medo generalizado de que descendentes
dos sobreviventes viessem inexoravelmente a desenvolver doenças
como o câncer e
problemas físicos de má formação
congênita.
A condição de hibakusha
levavam muitos a se opor a um casamento e por isso
durante décadas os sobreviventes ou tiveram de ocultar o fato,
ou se casaram
com outro(a) sobrevivente. Em qualquer lugar e cultura,
desinformação gera
medo, e o medo gera preconceito. Por décadas, principalmente nos
Estados
Unidos, evitou-se divulgar o que de fato havia ocorrido com as pessoas
que
estavam em Hiroshima e Nagasaki. O mundo estava ideologicamente
dividido pela
Guerra Fria, e o governo americano não queria que sentimentos de
culpa gerassem
movimentos pacifistas que dividissem a opinião pública.
Mesmo no Japão -
transformado no pós-guerra em país aliado dos Estados
Unidos em função de sua posição
estratégica no tabuleiro de interesses da Guerra Fria -
procurou-se manter a
questão hibakusha fora da mídia. Era
mais importante mostrar as cidades reconstruídas do que falar
sobre as
cicatrizes físicas e psicológicas dos sobreviventes.
Os ferimentos e as
doenças atípicas
causadas pela radiação criaram um desafio para a
medicina. Não havia nem
conhecimento nem experiência para o tratamento eficaz das
vítimas. Logo após a
explosão até ossos esmagados dos mortos nas
explosões foram usados pelos sobreviventes
como medicamentos - o que indica o grau de desabastecimento de
remédios e
curativos básicos, e o desespero das pessoas na época. A
experiência ao longo
de décadas tratando dos sobreviventes da bomba, por outro lado,
fez com que o
Japão desenvolvesse o que hoje é um avançado know-how no tratamento de doenças da
radiação. Esse tratamento
especializado é prestado gratuitamente aos hibakusha
no Japão. Entretanto, tal regra não se aplica aos
sobreviventes que emigraram
para outros países, como os imigrantes japoneses que vieram para
o Brasil. É
para estender tal benefício aos hibakusha
que vivem no Brasil que Takashi Morita fundou aqui uma
associação: a Associação
das Vítimas da Bomba Atômica. "Não se trata de um
favor ou algo
excepcional" - explica Morita - "É um direito que os
sobreviventes
têm, e é um tratamento que só existe no
Japão. Já é difícil para cada hibakusha
ter que ir até o Japão, e
custear a viagem e a estadia do próprio bolso. Pagar despesas
médicas
particulares lá é algo impossível".
www.culturajaponesa.com.br/htm/bombaatomica.html
- Cristiane A. Sato
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