O LEGADO CULTURAL NUCLEAR
Por muitos anos, o que
ocorreu em
Hiroshima e Nagasaki foi ocultado do grande público. Num
primeiro momento, o
governo japonês da 2ª Guerra ocultou os bombardeios
atômicos do povo japonês,
com a distorcida prioridade de manter o "moral popular e das tropas
elevado". Num segundo momento foi a vez do governo americano, logo
após a
rendição do Japão, pelas também distorcidas
razões e estratégias da nascente
Guerra Fria. Em qualquer tipo de guerra, a ética e o
humanitarismo são as
primeiras vítimas.
Relatos superficiais do grau
de destruição
causado pelos bombardeios atômicos geraram um sentimento
generalizado de medo,
que se acentuou a partir de 1949 quando a União Soviética
conseguiu fazer
explodir sua primeira bomba nuclear num teste, iniciando uma corrida
armamentista bipolarizada. A restrição de
informações, entretanto, não fez com
que o medo se dissipasse - muito ao contrário. Em 1954, um teste
de armas
termonucleares americanas no Atol de Bikini chegou à
potência de 15 megatons (o
equivalente a 15 milhões de toneladas de TNT, ou cerca de 1.150
bombas de
Hiroshima). A sensação de que a humanidade era capaz de
cometer um haraquiri
nuclear a qualquer instante, dependendo do estado de espírito de
líderes
políticos confortavelmente instalados em bunkers, não era
infundada.
A mera possibilidade de uma
hecatombe
nuclear gerou um medo que se instalou na cultura da época, e a
censura sobre o
assunto na mídia - fosse ela auto-promovida ou não -
fazia com que o tema fosse
tratado apenas de forma poética ou através de analogias.
É curioso observar que
assunto tão sério foi tema de vários filmes de
baixo orçamento do então
engatinhante gênero ficção científica.
Popular, mas tratado com desdém pela
crítica especializada, este gênero de filmes refletiu o
medo nuclear da época e
produziu um ícone. "Godzilla" (em
japonês, "Gojira"), filme
de 1954 dos estúdios Toho, foi protagonizado por um monstro
gigante gerado
pelos testes em Bikini, que chega ao Japão destruindo tudo pelo
caminho com seu
enorme rabo e matando pessoas com seu bafo radioativo, numa analogia
aos
bombardeios atômicos. Em 1959, "Hiroshima
Mon Amour", produção franco-japonesa, ganhou a Palma
de Ouro do
Festival de Cannes e tornou-se um sucesso internacional tratando de
forma séria
mas poética a questão do medo nuclear, apresentando
imagens dos sobreviventes
da bomba atômica como pano de fundo de um filme romântico.
Entre os japoneses,
entretanto, há um
traço marcante resultante da experiência atômica: o
caráter pacifista. A
consciência de que a energia nuclear traz mais problemas que
benefícios fez do
país uma das poucas nações-membro do seleto grupo
dos mais ricos do mundo capaz
de desenvolver armas nucleares, mas que se abstém de
fazê-lo. Um dos benefícios
de tal opção está no fato do Japão
não apenas ser a 2ª maior economia do mundo,
mas também ser um dos países com a melhor
distribuição de renda do globo. O
dinheiro que seria gasto com armas simplesmente foi usado em
propósitos mais
positivos. Mágoas à parte, os hibakusha
são sinceros quando dizem "que sejamos os únicos". E que
nunca mais
ocorra o que ocorreu em Hiroshima e Nagasaki.
www.culturajaponesa.com.br/htm/bombaatomica.html
- Cristiane A. Sato
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