RELATOS E IMAGENS
Outra maneira pela qual
sabemos o que
significa a bomba atômica é pelo relato dos sobreviventes,
os hibakusha.
Ao longo de décadas
divulgou-se amplamente
- talvez para reduzir o desconforto que causa à
consciência - que a maioria das
vítimas das explosões atômicas morreram
instantaneamente. Os relatos de
sobreviventes, entretanto, nos leva a questionar tal
afirmação.
Cientistas americanos
enviados a Hiroshima
para analisar os efeitos da explosão em objetos e pessoas
calcularam que os que
estavam dentro do raio de 1 quilômetro de distância do
hipocentro (denominação
técnica do local da explosão, também chamado de ground zero - expressão hoje famosa para assinalar
o local onde
ficava o World Trade Center, destruído no atentado terrorista de
11 de setembro
de 2001 em Nova York, mas que foi usada pela primeira vez em Hiroshima)
teriam
morrido de imediato - o que se subentenderia "sem sofrimento". Isso
porque nesta área o calor emitido pela explosão
alcançaria a temperatura de 6
mil graus Celsius (uma pista disso foram bolhas formadas em telhas de
pedra).
De fato, as pessoas que estavam a menos de 500 metros do hipocentro sem
qualquer objeto que eventualmente agisse como barreira contra os
efeitos
diretos da explosão não tiveram qualquer chance.
O mero clarão da
explosão desintegrou
algumas pessoas. Durante anos uma misteriosa sombra impressa nos
degraus que
restaram da entrada de um prédio no centro de Hiroshima intrigou
os
pesquisadores, até que se descobriu tratar-se da sombra de uma
pessoa que
estava sentada naqueles degraus, desintegrada no momento da
explosão. Outras
centenas faleceram daquilo que passou a ser comumente chamado de
"fervura
do sangue" - a altíssima temperatura gerada pela explosão
fez tudo o que
fosse líquido ferver. No caso do corpo humano, o sangue entrou
em ebulição e
órgãos internos cozinharam. A morte foi tão
instantânea nestes casos que corpos
carbonizados de passageiros de bondes foram encontrados exatamente na
posição
em que estavam - alguns sentados segurando vestígios de bolsas
ou pacotes,
outros em pé, segurando-se nas barras de apoio. A grande
maioria, entretanto,
teve tempo suficiente para ter consciência de que iriam morrer,
subentendendo-se, obviamente, que houve sofrimento.
Yoshitaka Kawamoto tinha 12
anos quando
estudava numa escola primária em Hiroshima, a 700 metros do
hipocentro. Teria
sido um dia de aula normal, quando todos ouviram o som de um
avião se
aproximando - o que era estranho, pois as sirenes de alerta não
haviam tocado,
o que de imediato teria feito os professores evacuar as salas e
direcionar os
alunos para os abrigos. A criançada curiosa levantou-se das
carteiras e correu
para as janelas para observar o avião. Kawamoto sentava-se longe
da janela, e
não conseguiu chegar até ela. Ele acha que no momento do
clarão ele estava
atrás de uma parede de concreto, que o poupou de queimaduras
mais sérias, e
quando veio o estrondo e o impacto da explosão, o andar de cima
desmoronou. Um
calor absurdo o fez sentir como se estivesse cozinhando vivo. Alguns
instantes
depois, em meio a pó, entulho, choro e gritos de desespero,
Kawamoto deu-se conta
de que estava ferido (um braço quebrado, estilhaços de
vidro pelo corpo e
queimaduras), mas estava vivo. Procurou seu melhor amigo, um colega de
classe,
chamando-o pelo nome. O amigo, muito ferido e cego pelo clarão,
o ouvia e
tentava ir até onde Kawamoto estava tentando ficar em pé,
mas caía ao fazê-lo,
provavelmente com a coluna fraturada. Kawamoto percebeu que não
apenas seu
amigo, mas todos seus colegas estavam na mesma situação,
gravemente feridos.
Queria ajudá-los, mas eram muitos e ele era o único que
ainda conseguia andar.
Sentindo que ia morrer, o amigo pediu a Kawamoto que entregasse seu
caderno à
sua mãe. Kawamoto remexeu no entulho até encontrar o
caderno do amigo e fugiu.
No pátio da escola, encontrou seu professor de
educação física. O homem estava
completamente desfigurado, em carne viva, com grandes pedaços da
pele
desgrudados do corpo, mas Kawamoto reconheceu-o pela voz. Mesmo naquele
estado,
o professor estava carregando um aluno morto, e lhe ordenava a ajudar a
recolher os corpos de outros alunos que estavam espalhados pelo
pátio,
amontoando-os sobre um carrinho para carregar material. Não
houve tempo para
fazer muito. Pouco depois, o professor simplesmente caiu morto.
Durante horas, Kawamoto
andou pelas ruas
de Hiroshima procurando ajuda, mas tudo que ele encontrava era mais
mortos,
gente queimada, desmembrada e incêndios. A
destruição tinha tornado a cidade
irreconhecível e ele vagou perdido pelo que havia restado das
ruas, até
finalmente desmaiar de exaustão. Acordou olhando para um
soldado, que lhe
explicou que ele havia ficado inconsciente e delirado por dias. Alguns
dias
depois sua mãe, ilesa por morar na zona rural de Hiroshima,
atrás das montanhas
que circundam a cidade, o encontrou. Em casa, Kawamoto adoeceu e perdeu
os
cabelos - a "doença da bomba". Na época, isso era
prenúncio de morte
certa. "Se hoje estou vivo, é graças à minha
mãe", contou Kawamoto.
"Não sei o que ela me dava, mas lembro-me de que ela saía
às 3 da
madrugada para buscar uma erva que crescia a uma caminhada de uma hora
de casa,
com a qual ela fazia um remédio para eu tomar. Não sei se
foi essa erva, mas
aos poucos eu melhorei. Sem a dedicação dela, eu teria
morrido". Kawamoto
foi o único sobrevivente da escola onde estudava.
Assim como muitos hibakusha, Kawamoto procurou reconstruir sua vida
evitando as
lembranças do dia da explosão. Posteriormente, ele
procurou a mãe do amigo, a
quem havia prometido entregar o caderno de classe. Infelizmente,
Kawamoto
perdeu o caderno quando desmaiou no dia da explosão, mas cumpriu
o desejo
último de seu amigo, de ao menos fazer sua mãe saber que
ela estava em seus
últimos pensamentos. Kawamoto casou-se mas não teve
filhos, temendo que a
exposição à radiação causasse danos
a seus descendentes. Entretanto, já
sexagenário, decidiu enfrentar a dor das lembranças e
tornou-se diretor do
Hiroshima Peace Memorial Museum. Durante anos ele narrou pessoalmente
sua
história aos visitantes do museu, diante da maquete que reproduz
a cidade em
ruínas pouco depois da explosão, indicando com o
próprio dedo onde se
localizava a escola onde sua geração pereceu.
Nenhum relato entretanto
tornou-se mais
completo, mais comovente e mais conhecido no mundo inteiro que uma
história em
quadrinhos. Entitulada Hadashi no Gen (Gen,
Pés Descalços), esta narrativa de mais de 800
páginas foi escrita e desenhada
nos anos de 1972 e 1973 por Keiji Nakazawa - ele mesmo um sobrevivente
da
explosão de Hiroshima. Não se trata de uma
história em quadrinhos ficcional.
"A história de Gen é a minha história; a
família dele é a minha",
explica Nakazawa em entrevistas, que até hoje não
consegue evitar a emoção e a
voz embargada ao dizê-lo. No dia da explosão, Nakazawa
perdeu o pai, a irmã
mais velha e o irmão caçula, presos nos escombros da
própria casa, construída
de madeira e que ruiu com a onda de choque. Aos 7 anos, ele presenciou
sua
família ser carbonizada viva, quando o incêndio que tomou
a cidade após a
explosão atingiu a casa.
www.culturajaponesa.com.br/htm/bombaatomica.html
- Cristiane A. Sato
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