Bonsai, o efêmero e o eterno plantado num vaso
O bonsai não é simplesmente a miniatura de uma árvore, uma planta decorativa. É uma obra de arte viva, que expressa a filosofia japonesa e o sentimento de cada mestre.
O mestre Kunio Kobayashi criou o Shunkaen Bonsai Museum para que as pessoas, principalmente estrangeiros, tivessem acesso fácil e pudessem compreender mais profundamente essa arte. O museu fica em Edogawa-ku (Tokyo).
“Eu vejo no bonsai a dignidade e a energia da vida. E também, o efêmero e o eterno ao mesmo tempo. Por exemplo, uma árvore idosa, que já está na fase final da existência. Mesmo assim, beirando a morte, de um galho seco brotam folhas e a vida brilha. No interior da árvore está guardada a força da vida. Tem essa outra maneira dele ser admirado, pela sua beleza interna”, me explicou o mestre quando lhe perguntei o que o bonsai significa para ele.
Várias árvores expostas no museu parecem que estão quase morrendo, com o
tronco retorcido, secas. Elas não ficaram desse jeito naturalmente e,
na verdade, estão plenas de vida. Foram propositadamente manipuladas
pelo mestre Kobayashi para mostrar a “beleza interna”. Nesse ponto é que
o bonsai é considerado obra de arte. Como qualquer outro artista, a
pessoa que o cultiva usa o seu conhecimento técnico para expressar um
sentimento. A diferença é que o mestre do bonsai trabalha com um
elemento vivo.“A gente lida com várias espécies de árvores e é preciso ter um conhecimento profundo da natureza de cada uma. Cada indivíduo, dependendo da espécie, tem características e necessidades próprias. Por exemplo, o tronco e os galhos do ume (ameixeira japonesa) sempre ficam curvados. Já o sugi (cedro) cresce reto e alto. Respeitando a “personalidade” de cada uma é que vamos possibilitar que elas mostrem sua própria beleza. Não podemos fazer uma intervenção que esteja fora da natureza de cada árvore”, disse Kobayashi.
Ele acrescentou que “um bosai é um universo. Não é só a árvore, também é importante o vaso, o jeito de colocar a terra nele, o musgo por cima. Tudo tem que estar em harmonia e em consonância com o sentimento que se quer expressar. É uma arte integral, onde tudo é pensado.”
Kobayashi leva dez anos ou mais para produzir um bonsai. Algumas plantas são cultivadas a partir de mudas, mas uma boa parte são árvores já adultas colhidas nas florestas e depois “miniaturizadas”. Trabalhar com o bonsai não tem ponto final, porque sempre precisa estar cuidando, direcionar o seu crescimento e a estética.
O museuAlém de um jardim com centenas de bonsai, o museu tem um magnífico prédio em estilo tradicional japonês com vários ambientes. O mestre explicou que o construiu pensando em mostrar para os visitantes como o bonsai está integrado na cultura japonesa.
Normalmente, as pessoas só têm a chance de ver os bonsai em exposições fora do seu ambiente tradicional, mas ele faz parte de um conjunto de elementos do tokonoma, o recanto da sala de uma casa tradicional japonesa um pouco mais elevado do que o assoalho.
No tokonoma sempre tem um kakejiku, desenho ou caligrafia que fica pendurado na parede. Um outro componente frequente é o ikebana, arranjo floral, ou o bonsai.No museu existem várias salas com tokonoma em diferentes estilos, inclusive uma típica de cerimônia de chá. O prédio também abriga uma coleção de valiosos vasos antigos específicos para bonsai.
Na entrada do museu, junto ao jardim, fica a oficina de trabalho. Os
visitantes também podem ver a atividade diária do mestre e seus vários
discípulos. Kobayashi acha importante passar a sua técnica para os mais
jovens e recebe aprendizes japoneses e estrangeiros. Ele confessou que
tem um sonho. “Eu gostaria que em cada país do mundo tivesse um
discípulo meu, transmitindo o que é a essência do bonsai.”Texto e fotos: Reginaldo Okada©
Coordenação e pesquisa: Satomi Shimogo
Nenhum comentário:
Postar um comentário